Seguro Rural Ganha Destaque na Recuperação de Pastagens e Crédito Verde

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Nova fase da recuperação de pastagens traz o seguro rural ao debate

A recuperação de áreas degradadas no Brasil deixou de ser apenas uma pauta ambiental e se consolidou como uma poderosa política de crédito. Com metas claras de produtividade, adaptação climática e rastreabilidade, essa iniciativa tem impactos diretos e significativos na gestão de riscos no campo.

A nova etapa do programa Caminho Verde Brasil está estruturando uma complexa engenharia financeira para viabilizar a chamada “restauração produtiva” em larga escala. Esse esforço é apoiado pelo Eco Invest Brasil, um mecanismo inovador que combina capital público catalítico com recursos privados, visando destravar investimentos sustentáveis no país.

Ao direcionar crédito para áreas historicamente degradadas e condicionar o financiamento a rigorosas metas ambientais e produtivas, o programa redefine a percepção de risco no agronegócio. Instrumentos de mitigação de risco, como o seguro rural, ganham força na agenda, mesmo que ainda não estejam diretamente integrados ao desenho atual do programa. Conforme informações divulgadas, a inadimplência e as exigências ambientais já reduziram em 16% o crédito rural, evidenciando a necessidade de mecanismos de proteção mais robustos.

Eco Invest Brasil capta R$ 30,2 bilhões para restauração produtiva

O Relatório de Pré-Alocação do segundo leilão do Eco Invest, realizado no início do ano, revelou uma captação expressiva de R$ 30,2 bilhões em investimentos totais. Esses recursos serão destinados à restauração produtiva de aproximadamente 1,4 milhão de hectares, com desembolsos previstos para o período entre 2025 e 2027.

Neste momento, o Caminho Verde Brasil entra em sua fase mais crítica: a transição dos recursos alocados para projetos efetivamente contratados, com execução em campo, fiscalização rigorosa e entrega de resultados produtivos concretos. Carlos Augustin, assessor especial do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), destaca que o programa já está operacionalizado, com recursos assegurados.

Augustin informou que os bancos vencedores do leilão já iniciaram a estruturação da oferta de crédito. “Já temos dez bancos que estão conveniados, que ganharam o leilão, e que, acredito, no início do ano que vem, já estão pondo isso em ordem de marcha, oferecendo aos clientes, agricultores e investidores que queiram usar esses recursos para sair de uma produtividade baixa para uma alta produtividade”, afirmou.

O programa abrange diversas atividades, como pecuária, lavoura e fruticultura. A meta ambiciosa é recuperar até 40 milhões de hectares improdutivos em todo o território nacional. Essa iniciativa representa um marco na política agrícola brasileira, combinando desenvolvimento econômico com responsabilidade ambiental.

Parceria com Japão eleva potencial de investimento para R$ 50 bilhões

Além da captação inicial de R$ 30 bilhões, o governo brasileiro assinou um importante acordo de cooperação com a Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) durante a COP30, em Belém. O acordo prevê apoio técnico ao Caminho Verde Brasil e um aporte financeiro de até US$ 1 bilhão para a recuperação de áreas degradadas.

Com a entrada desses novos recursos e a combinação com outros instrumentos de financiamento, o governo projeta elevar o volume total do programa para cerca de R$ 50 bilhões. “O potencial é de 40 milhões de hectares. Quanto tempo vamos levar para fazer isso depende, obviamente, do tamanho dos recursos. Começamos bem, com R$ 30 bilhões. Temos expectativa de aprovação de mais recursos da JICA e de outros instrumentos, o que pode nos levar a algo perto de R$ 50 bilhões”, explicou Augustin.

Na operacionalização, dez instituições financeiras foram selecionadas, sendo sete privadas e três públicas: Banco do Brasil, BNDES e Caixa Econômica Federal. Essa ampla participação visa garantir a capilaridade do programa em todo o país, embora também apresente o desafio de padronizar critérios técnicos, mensuração de resultados e monitoramento em escala nacional.

Prioridade para biomas estratégicos e sistemas integrados

Os recursos do programa tendem a se concentrar em biomas considerados estratégicos. Cerca de 57% dos investimentos serão direcionados ao Cerrado, seguido pela Mata Atlântica (13%), Amazônia (12%), Caatinga (10%) e, por fim, Pampa e Pantanal (cerca de 4% cada). Essa distribuição reflete a preocupação com a recuperação de áreas com diferentes níveis de degradação e importância ecológica.

Na distribuição por tipo de atividade financiável, as culturas perenes (33%) e as abordagens integradas (29%) despontam como as de maior interesse. Exemplos de sistemas integrados incluem os Sistemas Agroflorestais (SAF) e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Lavouras anuais ou pecuária isolada (27%) e florestas e restauração (11%) completam o quadro de atividades prioritárias.

A régua de acesso ao crédito é explicitamente ambiental e produtiva. O guia do Caminho Verde Brasil inclui práticas como o uso de bioinsumos, plantio de cobertura, sistemas integrados, certificação trabalhista e rastreabilidade bovina como componentes essenciais do pacote de sustentabilidade.

Entre as exigências centrais, os produtores não poderão desmatar por dez anos e deverão comprovar a redução de emissões de gases de efeito estufa. Esse monitoramento será realizado por satélite e seguirá protocolos técnicos coordenados pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). A lógica do programa é clara: alinhar incentivo financeiro com exigência ambiental para promover uma mudança estrutural no uso da terra.

“Não se trata apenas de um plano de investimento na agricultura. É um plano que pressupõe não desmatar, usar áreas mal utilizadas, reduzir emissões e produzir muito mais. A ideia é produzir mais, com menos emissão, maior produtividade, maior economia e competitividade no mercado”, ressaltou Augustin.

Seguro rural: de produto acessório a peça fundamental

Essa nova configuração do crédito rural expõe limitações históricas de um setor que, segundo o próprio agronegócio, ainda não consegue oferecer proteção na mesma escala do risco. O seguro rural, antes visto como um produto acessório, agora ganha destaque na discussão.

Dados recentes da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) indicam uma queda preocupante na cobertura do seguro rural. Ela passou de cerca de 30% da área agrícola para apenas 5% neste ano. Esse declínio ocorre em um contexto marcado por eventos climáticos recorrentes, perdas sucessivas no campo e um aumento significativo da inadimplência no crédito rural.

É neste cenário que o seguro rural deixa de ser apenas um complemento e passa a ser discutido como uma parte integrante da engrenagem financeira dos novos modelos de crédito verde. Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta desafios consideráveis em termos de escala, divulgação e adaptação técnica dos produtos.

Glaucio Toyama, presidente da Comissão de Seguro Rural da FenSeg (Federação Nacional de Seguros Gerais), afirma que a oferta de produtos de seguro para restauração existe há mais de três anos, mas ainda é pouco divulgada. “Existem seguros para restauração florestal em áreas de mata nativa há mais de três anos. O que acontece é que esse tipo de produto ainda é pouco divulgado. Muitos produtores acreditam que não existe cobertura disponível para restauração, quando, na verdade, ela já existe”, explicou.

Toyama aponta que a complexidade aumenta quando o financiamento abrange sistemas integrados, como ILPF e SAF, que mesclam agricultura, pecuária e floresta em uma mesma área. “Quando a gente fala de sistemas como ILPF ou sistemas agroflorestais, o desafio é que não existe padronização. Cada projeto combina culturas, floresta e pecuária de um jeito diferente. Isso dificulta a criação de um produto massificado, porque não há uma base estatística única para precificação do risco”, destacou.

Diante desse quadro, o mercado segurador tem buscado soluções customizadas, combinando seguros agrícolas, pecuários e florestais, ou desenvolvendo seguros de receita que considerem o desempenho do sistema como um todo. Na precificação, Toyama ressalta que a recuperação de áreas degradadas tende a melhorar o risco ao longo do tempo, mas exige cautela na fase inicial de conversão produtiva.

“No início da recuperação, a produtividade ainda não é igual à média regional. Por isso, o seguro precisa considerar um nível tecnológico inicial. Não dá para tratar uma área recém-recuperada como se ela já estivesse plenamente consolidada”, ponderou. Ele exemplifica que, no mapa de riscos do seguro agrícola, eventos como excesso e falta de chuva concentram mais de 70% dos sinistros. A solução, segundo Toyama, são os seguros paramétricos, acionados por índices climáticos.

“Eles ajudam a trazer previsibilidade mesmo quando a produtividade ainda está em formação”, concluiu, evidenciando a importância de novas abordagens para a proteção do agronegócio em um cenário de mudanças climáticas e novas exigências produtivas e ambientais.

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