IA na Psicologia: O Futuro da Terapia Chegou?
A inteligência artificial (IA) está se infiltrando em diversas profissões, e a psicologia não é exceção. Ferramentas de IA agora oferecem desde a transcrição automática de sessões de terapia até sugestões de abordagens clínicas. Essa integração levanta debates importantes sobre os benefícios, os riscos e o futuro da prática psicológica.
Empresas já comercializam softwares que prometem otimizar o trabalho dos psicólogos, automatizando tarefas administrativas e até auxiliando na análise de casos. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) reconhece essa incorporação no cotidiano profissional, mas enfatiza a necessidade de supervisão crítica e discernimento ético por parte de cada profissional.
A adesão dos psicólogos a essas novas tecnologias é uma realidade. Uma pesquisa revelou que alguns profissionais já utilizam IA para transcrever sessões e gerar resumos, buscando maior eficiência. No entanto, a discussão sobre os limites e a segurança desses avanços está apenas começando, com especialistas alertando para a importância de não substituir o julgamento clínico humano.
Otimizando Tarefas com Tecnologia
Psicólogos como Maísa Brum relatam benefícios ao usar IA para otimizar tarefas burocráticas e de registro. Ela utiliza um gravador com IA embutida para transcrever entrevistas com pacientes, o que facilita a produção de laudos técnicos. “Tem sido muito útil e facilitado bastante a minha vida de escrita”, afirma Brum, que ressalta a importância de obter o consentimento informado dos pacientes para a gravação e o uso da tecnologia, apagando os arquivos após o uso para garantir a confidencialidade.
Eduardo Araújo, outro psicólogo, emprega IA para análise e organização de dados em pesquisas, destacando sua utilidade em tarefas que envolvem grandes volumes de informação. Ele, contudo, alerta para a cautela com ferramentas que prometem diagnósticos, enfatizando que a IA deve ser um apoio e não um substituto para o raciocínio clínico.
Patrícia Mourão De Biase vê a IA como uma oportunidade de adaptação profissional. Ela utiliza a tecnologia para automatizar tarefas e criar conteúdos interativos para as sessões, como enquetes e tarefas de casa, que ajudam a manter o engajamento do paciente entre os encontros. “Crio enquetes e passo tarefas de casa para os pacientes. Isso refresca a conexão entre uma sessão e outra”, explica.
A transcrição de sessões e a transformação dessas em prontuários também se tornaram tarefas comuns com o auxílio da IA. De Biase reforça a necessidade do consentimento explícito dos pacientes, algo que, segundo ela, nunca foi recusado. Ela acredita que a tecnologia não substituirá a profissão, mas sim a complementará, auxiliando em pontos específicos e oferecendo novas formas de interação.
Riscos e Considerações Éticas na Integração da IA
Rodrigo Martins Leite, psiquiatra e psicoterapeuta, aponta que, embora a IA possa poupar tempo em tarefas administrativas, o maior risco reside na confusão entre a ferramenta e o profissional. Ele levanta preocupações sobre a confidencialidade dos dados, pois “não existe nenhum recurso de anomização das informações, por exemplo, o que pode ferir a Lei Geral de Proteção de Dados”.
Leite adverte que a IA não é um oráculo, mas sim uma ferramenta que utiliza bancos de dados da internet, onde há informações de qualidade variável. Ele enfatiza que a IA carece da profundidade necessária para compreender diferentes linhas teóricas e conceitos complexos da psicologia. “Se não estudarmos as teorias, a IA não vai fazer isso pelas pessoas. Vai, no máximo, oferecer um compilado superficial de teorias”, ressalta.
Um ponto crítico levantado por Leite é a velocidade das respostas da IA, que pode criar uma “ilusão de que a situação está muito clara” em terapias que, por natureza, envolvem incerteza e ambiguidade. Ele considera perigoso o imediatismo que a IA pode fomentar, pois a terapia exige tempo para elaboração e compreensão.
O psiquiatra também destaca que a formação profissional em psicologia é baseada na supervisão humana e na troca interpessoal, algo que a IA não pode replicar. “Nossa formação é baseada na supervisão humana. Nos formamos a partir da experiência de outro profissional, que vai nos orientando, discutindo como estamos vendo os casos. A IA não pode substituir isso”, conclui.
O Papel do Conselho Federal de Psicologia
Carolina Roseiro, conselheira do Conselho Federal de Psicologia (CFP), afirma que o órgão tem discutido o uso da IA há cerca de três anos. Ela ressalta que a tecnologia possui limitações técnicas e éticas, e não é neutra, podendo reproduzir discriminações presentes em sua programação. A orientação central do CFP é que cada profissional assuma integralmente a responsabilidade pelo uso dessas ferramentas.
“Qualquer resposta que essa tecnologia der é responsabilidade da pessoa que deu o comando”, pontua Roseiro. Ela reforça que a mediação humana é indispensável, pois a IA não estabelece limites éticos nem compreende o contexto clínico por si só. O CFP prepara cartilhas para orientar tanto profissionais quanto o público em geral sobre o uso da IA na saúde mental.
A conselheira enfatiza a importância do consentimento do paciente, por escrito, para qualquer uso da IA durante o atendimento. Ela alerta que a falta de sigilo por parte da ferramenta pode levar o psicólogo a ser responsabilizado por quebra de confidencialidade. A discussão sobre a IA na psicologia, portanto, exige um equilíbrio entre a adoção de novas tecnologias e a manutenção dos princípios éticos e da segurança do paciente.
Plataformas Especializadas e o Consentimento do Paciente
Plataformas como a PsiDigital oferecem um “assistente virtual” para psicólogos, prometendo capturar pontos importantes durante as sessões e gerar relatórios detalhados com sugestões de intervenção. Gustavo Landgraf, criador da PsiDigital, teve a ideia ao observar a esposa, psicanalista, sobrecarregada com anotações manuais. A plataforma descarta gravações e transcrições ao fim de cada sessão, armazenando apenas um resumo criptografado e protegido por senha.
Landgraf incentiva a busca pelo consentimento dos pacientes, embora a plataforma não possa garantir que os profissionais o obtenham. Ele argumenta que o modelo manual também não garante maior privacidade, já que anotações em papel podem ser perdidas ou roubadas. A plataforma busca oferecer maior segurança e eficiência em comparação ao uso de IAs genéricas, evitando que os dados sejam usados para treinar algoritmos.
Ele reitera que a IA é uma amiga, um apoio, mas não substitui o terapeuta. A IA não questiona, não compreende as nuances da expressão humana, do rosto e do corpo. A integração da IA na prática psicológica, portanto, deve ser vista como uma ferramenta para potencializar o tratamento, sempre com a devida atenção aos aspectos éticos e à relação terapêutica.











