Volkswagen Aduce Preço Elevado como Freio para Eletrificação no Brasil
O presidente da Volkswagen no Brasil, Ciro Possobom, admitiu em entrevista exclusiva que o preço dos veículos elétricos tem sido um fator limitante para a expansão da eletrificação da marca no país. Ele destacou a necessidade de um cuidado especial ao introduzir novas tecnologias, visando não desposicionar a marca e garantir que os consumidores brasileiros possam arcar com os custos.
“Um cliente de R$ 120 mil não é o mesmo de R$ 160 mil. Então eu tenho que ter muito cuidado quando você adota algumas tecnologias, para talvez não desposicionar e o brasileiro não conseguir pagar”, explicou Possobom, ressaltando a sensibilidade do mercado brasileiro em relação a preços.
Atualmente, a Volkswagen oferece no Brasil apenas modelos 100% elétricos, o ID.4 e o ID.Buzz, ambos disponíveis exclusivamente por assinatura. A ausência de opções mais acessíveis, como híbridos, coloca a montadora alemã em desvantagem competitiva diante de rivais que já apostam em diferentes níveis de eletrificação.
Conforme informação divulgada pelo g1, concorrentes como a Fiat já disponibilizam sistemas híbridos leves em modelos como Pulse e Fastback. Outras montadoras, como Toyota, Ford e Honda, oferecem soluções de eletrificação mais avançadas, com a Toyota sendo pioneira no Brasil em híbridos flex desde 2019 com o Corolla. Além disso, marcas chinesas têm ganhado espaço com modelos eletrificados, elevando a participação de veículos importados no mercado nacional para perto de 20%, um aumento significativo em relação aos 13% de três anos atrás, segundo dados da Anfavea.
Volkswagen Promete Eletrificação em Todos os Lançamentos a Partir de 2026
Apesar dos desafios de preço, a Volkswagen reafirmou seu compromisso com a eletrificação. A montadora anunciou que todos os novos modelos lançados a partir de 2026 terão pelo menos uma versão eletrificada. Essa iniciativa faz parte de um plano mais amplo de investimento e desenvolvimento para o mercado brasileiro.
“A gente anunciou algumas semanas atrás a entrada realmente da Volkswagen na eletrificação, com mais força. Então, todos os carros produzidos que nós vamos lançar a partir de 2026 vão ter algum tipo de eletrificação”, afirmou Possobom. Para acelerar esse processo, a empresa contratou um empréstimo de R$ 2,3 bilhões no BNDES.
O presidente da Volkswagen destacou que as tecnologias híbridas flex são vistas como uma solução promissora para o Brasil, considerando as particularidades do país, como a extensão territorial e o uso intenso dos veículos pelos brasileiros. “O brasileiro anda muito de carro, são 13 mil ou 15 mil km por ano. Ele pega o carro, vai para a praia, coloca a família”, comentou.
Possobom mencionou que soluções como híbridos leves (HEV), híbridos plenos e híbridos plug-in são consideradas, assim como os carros 100% elétricos, dos quais a Volkswagen possui modelos “sensacionais lá fora” que poderiam ser adaptados para o mercado brasileiro. Ele também ponderou sobre a possibilidade de trazer carros elétricos produzidos na China, a exemplo de outras montadoras, mas ressaltou a preferência por fabricar localmente, com tecnologias voltadas às necessidades do consumidor nacional.
A Volkswagen acredita que a eletrificação deve considerar o comportamento do consumidor brasileiro, que tende a manter seus carros por muitos anos e se preocupa com o valor residual. “O brasileiro, ele tem um comportamento. Ele precisa ficar anos com o carro. Tem que cuidar muito com o valor residual desse carro. Como é que vai estar essa tecnologia daqui a 3, 4 anos? Então, a gente acredita que a solução de híbridos é a melhor solução aqui para o brasileiro”, concluiu.
Sucesso do SUV Volkswagen Tera Impulsiona Vendas e Reforça Estratégia da Marca
Em um momento positivo para a empresa, a Volkswagen celebrou um crescimento de 18% nas vendas na América Latina, impulsionado em parte pelo sucesso do SUV Volkswagen Tera. Lançado em meados deste ano, o modelo desenvolvido pela unidade brasileira já lidera entre os SUVs mais emplacados no país, com 60 mil unidades vendidas entre mercado interno e exportações.
Ciro Possobom descreveu o lançamento do Tera como um marco, destacando que, no dia da sua apresentação, três meses de produção foram esgotados em menos de uma hora. “Comentei ano passado para a turma: ‘Pessoal, eu quero esse carro realmente que seja um ícone’. (...) Acertamos a campanha, acertamos a comunicação dele, acertamos no marketing, na maneira de vender”, disse o executivo.
O Tera representa um dos pilares dos R$ 20 bilhões em investimentos anunciados pela Volkswagen para a América Latina. O desenvolvimento de um novo veículo, segundo Possobom, exige cerca de cinco anos de planejamento, testes e ajustes. A percepção do potencial de sucesso de um modelo, seja positivo ou negativo, geralmente surge entre três e seis meses antes do lançamento, quando o projeto está consolidado e as decisões finais sobre design, motorização e outros aspectos são tomadas.
No caso do Tera, o interesse do público foi evidente desde as primeiras apresentações. Um teaser no Rock in Rio, nove meses antes do lançamento oficial, e a apresentação completa no Rio de Janeiro, durante o carnaval, geraram grande expectativa. A abertura das encomendas resultou na venda de 12.200 unidades em menos de uma hora, forçando a suspensão dos pedidos devido ao limite de produção da fábrica de Taubaté (SP), onde o modelo divide a linha de montagem com o Polo.
Mercado Brasileiro Prefere SUVs, Mas Hatches Mantêm Relevância para a Volkswagen
O presidente da Volkswagen abordou também a preferência do consumidor brasileiro por SUVs, que já representam 54% dos veículos emplacados, em comparação com os hatches, que somam 24,6%. A própria linha de produtos da Volkswagen reflete essa tendência, com seis opções de SUVs, incluindo o elétrico ID.4, contra duas opções de hatches.
Apesar da predominância dos SUVs, Possobom ressaltou que os hatches continuam sendo importantes para a marca. “O SUV, ele [o público brasileiro] realmente prefere mais, mas não quer dizer que o hatch não é importante”, afirmou. Ele observou que, embora o Tera tenha superado o Polo em vendas, a importância dos hatches no portfólio da empresa não deve ser subestimada.
A Volkswagen oferece atualmente no Brasil seis SUVs (Tera, Nivus, T-Cross, Taos, Tiguan e ID.4), dois hatches (Polo e Golf GTI), duas picapes (Saveiro e Amarok) e uma minivan (ID.Buzz). A estratégia da marca busca equilibrar a oferta de veículos que atendam às demandas atuais do mercado, como os SUVs, com a manutenção de opções tradicionais e relevantes, como os hatches.
Juros Baixos, Produção Nacional e Legislação Flexível Poderiam Impulsionar Mercado Automotivo
A projeção para o mercado de automóveis em 2025 indica um crescimento de 3%, com 2,55 milhões de veículos zero quilômetro emplacados. No entanto, essa expectativa foi revisada para baixo, de 5% para 3%, evidenciando a necessidade de fatores adicionais para um crescimento mais robusto.
Ciro Possobom apontou três elementos cruciais que poderiam impulsionar o mercado automotivo brasileiro: juros mais baixos, aumento da produção nacional e uma regulamentação mais flexível. A taxa de juros Selic, atualmente em 15%, tem previsão de queda para cerca de 12% até o final de 2026, mas a redução dos encargos financeiros é vista como um catalisador fundamental para o setor.
A expansão da capacidade produtiva no Brasil também foi destacada como um fator decisivo. “Se a gente produz na região, sei lá, 600 mil carros, por exemplo, se eu pudesse produzir 700 mil ou 800 mil carros, com certeza, o meu custo barataria. A indústria precisa se fortalecer, precisa de mais massa de produção. Isso ajudaria a ter o carro mais competitivo”, explicou.
Adicionalmente, Possobom criticou a legislação de emissões de poluentes no Brasil, considerando-a mais rigorosa que a de países como Europa e Estados Unidos. Ele argumenta que normas como o PL 8, que estabelece limites de emissão mais restritos e exige tecnologias de captura de vapores de combustível, aumentam os custos de produção e, consequentemente, o preço final dos veículos. A fase mais recente do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (PL 8) entrou em vigor em 2025, com implementação gradual até 2029.
Volkswagen Avalia Retorno ao Salão do Automóvel com Eventos Mais Dinâmicos
A Volkswagen optou por não participar do recente Salão do Automóvel de São Paulo, que retornou após sete anos. A decisão foi justificada pela necessidade de eventos mais fortes e inovadores, com a presença de todas as grandes marcas. Possobom expressou o desejo de que o evento se fortaleça para uma possível participação em 2027.
O executivo também criticou o formato tradicional de salões fechados, sugerindo modelos mais abertos e dinâmicos, inspirados em eventos europeus. “Acho que ficar naquele modelo do salão de galpão fechado, com cada um num canto, talvez não seja o que o público queira”, avaliou. A Volkswagen tem investido em outras ativações de marketing para se conectar com o público e promover seus lançamentos, buscando formatos que gerem maior engajamento e impacto.











