Ator de TV troca holofotes por farda policial e inspira nova geração de recrutas.
Aos 65 anos, Jerry O’Donnell, conhecido por seus papéis em séries como "Dexter" e "NYPD Blue", está vivendo uma reviravolta impressionante em sua carreira. Após passar 40 anos interpretando policiais nas telas, O’Donnell decidiu vestir o distintivo de verdade e ingressar na força policial de Asheville, na Carolina do Norte. A decisão, que surpreende muitos, foi motivada por um evento transformador e um desejo profundo de servir à comunidade.
A jornada de O’Donnell para se tornar um policial não é apenas uma mudança de carreira, mas uma demonstração de que nunca é tarde para perseguir um chamado. Ele está se dedicando intensamente ao treinamento físico, correndo e se exercitando ao lado de recrutas muito mais jovens, provando que determinação e paixão podem superar qualquer barreira de idade. Sua esposa, Alison Crowley, relata que a ideia surgiu após o Furacão Helene, que devastou a região onde o casal se mudou para a aposentadoria.
A força do furacão e a união da comunidade em meio à tragédia inspiraram O’Donnell a buscar um propósito maior. Ele percebeu a importância do serviço público e a necessidade de contribuir ativamente para o bem-estar de sua nova cidade. Esse desejo de fazer a diferença o levou a pesquisar sobre a academia de polícia local e descobrir que não havia limite de idade para o ingresso. A partir daí, ele se inscreveu, dando início a um processo rigoroso de seleção que incluiu exames, entrevistas e um teste de detector de mentiras.
Um chamado à vocação após a catástrofe do Furacão Helene
O Furacão Helene, que atingiu Asheville em 2024, foi um divisor de águas na vida de Jerry O’Donnell. Morando na cidade há poucos anos, buscando uma aposentadoria tranquila após uma longa carreira em Hollywood, ele testemunhou em primeira mão a resiliência e a solidariedade de seus vizinhos. Em meio à destruição, pessoas se ajudaram, compartilharam recursos e trabalharam juntas para reconstruir suas vidas.
Esse cenário de união e superação despertou em O’Donnell uma profunda reflexão sobre o que realmente importa. "Foi um momento de pensar: o que é importante?", compartilhou sua esposa, Alison Crowley. Foi nesse contexto que o ator sentiu o chamado para "fazer algo de serviço", algo que, segundo ela, ele sempre almejou: ser policial.
Com a energia e o serviço de internet restabelecidos após mais de um mês, O’Donnell não hesitou. Ele pesquisou e descobriu que a academia de polícia de Asheville não impunha restrições de idade para seus candidatos. Sem perder tempo, ele se inscreveu, pronto para encarar um novo desafio. Sua esposa o descreve carinhosamente como "Jerry, o Touro", ressaltando sua determinação inabalável em alcançar seus objetivos.
O ator se destaca na academia de polícia como o aluno mais velho
Após meses de exames rigorosos, entrevistas e um teste de detector de mentiras, Jerry O’Donnell foi aceito na academia de polícia de Asheville. O treinamento começou em julho, e sua formatura está prevista para janeiro. Aos 65 anos, ele se tornou o aluno mais velho a iniciar o treinamento policial no departamento, conforme confirmado por Rick Rice, oficial de informação pública da polícia de Asheville. Essa conquista é motivo de orgulho para O’Donnell e um marco para a instituição.
O ator não está sozinho em sua nova jornada. Ele observa que muitos de seus colegas de classe mais jovens também foram motivados a ingressar na carreira policial após o Furacão Helene. Entre eles, há ex-bombeiros, agentes da Administração de Segurança de Transportes e motoristas de ônibus de turismo, todos unidos pelo desejo de servir à comunidade em um momento de necessidade.
O’Donnell se sente "privilegiado" por fazer parte da maior turma de cadetes que o departamento viu em anos, com 22 futuros formandos. Ele acredita que sua participação contribui para a reconstrução da força policial, ajudando a preencher a lacuna de efetivo que assola o departamento e outras agências de segurança pública pelo país. Para ele, trata-se de "fazer parte de algo maior do que você mesmo".
A carência de policiais no país e o papel de O'Donnell nesse cenário
A decisão de Jerry O’Donnell em se tornar policial ocorre em um momento crucial para as forças de segurança nos Estados Unidos. Uma pesquisa realizada pela Associação Internacional de Chefes de Polícia em 2024 revelou que, em média, as agências operam com apenas 91% de seus níveis de pessoal autorizados. Essa escassez de efetivo tem sido agravada por uma série de fatores, incluindo os impactos da pandemia de Covid-19, a resposta pública a eventos como a morte de George Floyd e o movimento "defund the police".
Em Asheville, a situação reflete essa tendência nacional. O ex-Chefe de Polícia de Asheville, Michael Lamb, informou que 126 policiais pediram demissão em um período de três anos. Em um departamento com cerca de 232 pessoas, isso representa mais da metade do efetivo saindo do emprego. Simultaneamente, o Departamento de Polícia de Asheville (PD) registrou números muito baixos de novos recrutas na academia, o que, segundo Lamb, "aumenta tanto o crime contra o patrimônio quanto o crime violento, e [há] uma diminuição no nível de atendimento ao público".
Para combater essa crise de pessoal, o Departamento de Polícia de Asheville implementou uma estratégia focada em marketing e recrutamento, que resultou em um aumento significativo no número de cadetes por turma, passando de uma média de cinco para 15 pessoas. A inclusão de Jerry O’Donnell na maior turma dos últimos anos é vista como um impulso importante para esses esforços, atraindo atenção e possivelmente inspirando outros a considerar uma carreira na polícia.
Décadas de atuação preparam O'Donnell para a nova realidade
A carreira de Jerry O’Donnell em Hollywood é vasta e diversificada. Ele é conhecido por papéis recorrentes em séries aclamadas como "Mad Men", "JAG", "Masters of Sex", "Castle" e "The Young and the Restless". Sua experiência em interpretar personagens ligados à lei e à ordem, como policiais e militares, o preparou de certa forma para os desafios da vida real como agente da lei. Ele também teve aparições como "ocasionalmente um bandido", mostrando sua versatilidade.
O ator, que serviu quatro anos no Exército dos EUA como membro da elite 82ª Divisão Aerotransportada, já possuía uma disciplina e um senso de dever incorporados em sua trajetória. Sua esposa, que o conheceu na indústria da atuação, descreve-o como um ator "journeyman", aquele tipo de profissional que o público reconhece, mas nem sempre lembra o nome. Juntos, eles até dirigiram uma produtora em Nova York.
O’Donnell acredita que suas décadas em Hollywood foram um treinamento valioso para essa nova fase. "Se eu interpreto alguém, tenho que pensar, ‘Pelo que essa pessoa passou para chegar aqui?’", explicou. Ele aplica essa mesma lógica ao seu treinamento policial, onde o "treinamento de empatia" é crucial. Aprender a abordar as pessoas na rua com respeito e compreensão, enxergando-as como indivíduos e não apenas como alguém em crise, é um aprendizado que ele valoriza imensamente.
Um novo capítulo inspirador na vida do ator
A coach de atuação de longa data de O’Donnell, Risa Bramon Garcia, considera sua decisão de iniciar uma nova carreira aos 65 anos "bizarra", mas ao mesmo tempo totalmente alinhada com sua personalidade "ambiciosa" e "que assume riscos". Garcia vê essa transição como uma fonte de inspiração, destacando que a reinvenção é uma constante na vida dos atores, que precisam se adaptar e buscar novos papéis ao longo de suas carreiras.
"É uma mensagem real para todos nós de que existem capítulos finais que podem ser realmente novos e emocionantes", afirmou Garcia. A mudança de O’Donnell para a vida policial é uma prova de que é possível redefinir o próprio caminho, independentemente da idade, e encontrar propósito em novas vocações. Sua história ressoa como um lembrete poderoso de que a busca por significado e a vontade de servir podem levar a realizações surpreendentes e inspiradoras.
A experiência de O’Donnell, combinada com seu novo treinamento e a necessidade urgente de policiais, o posiciona como um membro valioso para a comunidade de Asheville. Sua jornada é um testemunho de coragem, determinação e do desejo humano de fazer a diferença, provando que o palco de Hollywood e as ruas de uma cidade podem, de fato, se cruzar de maneiras inesperadas e significativas.











