Cartão de crédito vira renda: a dura realidade do endividamento no Brasil
O Brasil vive um paradoxo: enquanto indicadores macroeconômicos apontam para uma aparente melhora, com inflação em queda e sinais de recuo no endividamento geral, a vida cotidiana das famílias brasileiras revela um cenário bem diferente. Contas básicas mais caras, o uso do cartão de crédito como um verdadeiro complemento de renda e um nível de inadimplência que insiste em permanecer elevado pintam um quadro de aperto financeiro que não se dissipa facilmente.
A sensação de que o dinheiro não é suficiente para cobrir todas as despesas é generalizada. O que antes era um meio de pagamento conveniente, o cartão de crédito se transformou, para muitos, em uma linha de sobrevivência. Essa mudança de hábito reflete a dificuldade em manter o orçamento em dia, empurrando cada vez mais brasileiros para o vermelho.
Um levantamento recente do Serasa expõe a dimensão do problema, mostrando que mais de 80 milhões de brasileiros estão endividados, com centenas de milhões de dívidas ativas que somam centenas de bilhões de reais. A origem dessas dívidas, muitas vezes, está ligada à necessidade de cobrir despesas básicas, como alimentação, em um ciclo vicioso de crédito caro e renda insuficiente. Conforme aponta a análise, o aperto financeiro tem levado famílias a utilizarem o cartão de crédito não apenas para compras, mas como uma fonte de recursos para o dia a dia, uma situação que se agrava com os juros altos.
O retrato do endividamento brasileiro: números e perfis
Os dados do Serasa pintam um cenário preocupante: 80.436.532 brasileiros estão endividados, com um total de 321 milhões de dívidas ativas que somam R$ 509 bilhões em todo o país. O valor médio devido por pessoa ultrapassa R$ 6,3 mil, e cada dívida individual gira em torno de R$ 1.584,96. Essa pulverização das dívidas, embora em valores menores por compromisso, demonstra a persistência e a abrangência do problema.
O endividamento não escolhe idade ou gênero, mas apresenta alguns recortes relevantes. Cerca de 33,6% dos inadimplentes estão na faixa etária de 26 a 40 anos, período em que as responsabilidades financeiras tendem a aumentar. Há também uma leve predominância feminina, com 50,5% das dívidas registradas em nome de mulheres, contra 49,5% de homens. Esses dados, conforme o levantamento, indicam que o aperto financeiro afeta diferentes segmentos da população.
Independentemente da idade ou gênero, a maior parte das dívidas se concentra nas faixas de menor renda. Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), entre famílias com até três salários mínimos, 82,5% estão endividadas. Na faixa de três a cinco salários mínimos, o índice é de 81,1%. Esses números evidenciam como qualquer desequilíbrio financeiro é suficiente para levar o orçamento dessas famílias ao vermelho.
Embora o indicador geral de endividamento tenha apresentado uma leve queda em novembro, para 79,2%, após nove meses de alta contínua, ele ainda permanece acima do patamar registrado um ano antes. Isso sugere que a melhora é lenta e frágil, e a sensação de aperto no orçamento doméstico persiste, sem oferecer uma folga efetiva.
Cartão de crédito: de meio de pagamento a bola de neve financeira
Quando o aperto financeiro se torna desesperador, o cartão de crédito deixa de ser apenas um meio de pagamento e se transforma em um complemento de renda. Essa é a realidade de muitos brasileiros, como Luiz Fernando Mamede, de 23 anos, autônomo. Ele relata a mudança de comportamento:
“Cartão de crédito acaba que hoje em dia é uma bola de neve. A gente usava para comprar roupa, algo para um lazer, e hoje usa para comprar alimento no dia a dia, porque o dinheiro do final do mês não supre todas as contas”, afirma.
Luiz Fernando exemplifica o preço do crédito caro ao mencionar que, ao somar os juros, pagou quase o triplo do valor original de seu primeiro apartamento financiado. Essa situação se repete em um ambiente de juros altos, onde a Selic permanece em 15% ao ano. Mesmo com a inflação acumulada em 4,4% nos últimos 12 meses, itens essenciais como artigos de residência, alimentação e bebidas continuam a pressionar o orçamento familiar.
Com isso, o espaço para quitar dívidas diminui, e o crédito caro consome fatias cada vez maiores da renda. Dados do Banco Central indicam que 28,8% da renda das famílias está comprometida com dívidas, o maior nível da série histórica. Desse total, impressionantes 10,23% da renda são destinados exclusivamente ao pagamento de juros, recursos que poderiam ser utilizados para alimentação, transporte, educação ou outras necessidades que geram bem-estar.
Empreendedores e a luta diária contra o endividamento
O peso do aperto financeiro também é sentido por quem empreende. Vanda Cristina Pereira, 40 anos, microempresária e mãe de seis filhos, descreve a batalha diária para manter o negócio e as contas em dia. Ela ressalta a responsabilidade com seus funcionários e a dificuldade em honrar todos os compromissos.
“Como chefe, líder, a gente tem famílias por trás da nossa família. E a gente tem que honrar essas famílias. E às vezes os impostos são tão grandes, as contas são tão grandes, as dificuldades são tão grandes, que acaba no final, recebendo muito menos do que o nosso próprio funcionário”, resume a microempresária.
Para Vanda, o limite do cartão de crédito se tornou uma linha de sobrevivência. “Muitas vezes você tem que estar ali pagando o limite, porque senão você não consegue sobreviver, pagar as contas, pelo menos ficar no empate”, explica. A renegociação de dívidas tornou-se rotina, e o limite do cartão é a última barreira antes que o atraso se transforme em inadimplência definitiva.
Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, destaca que o cartão de crédito é o instrumento mais utilizado pelas famílias para se endividarem, representando mais de 90% das dívidas. Ele explica que, embora tenha democratizado o acesso ao crédito, o cartão se tornou uma porta direta para o endividamento quando passa a ser utilizado como “renda contínua”.
“As famílias utilizam o cartão de crédito para comprar alimentos. […] Você vai precisar todo mês comprar alimento e parcela essa fatura em 3 ou 4 vezes. Mas no próximo mês você vai precisar também comprar alimentos, mas você tem também no mês seguinte já a parcela da compra anterior, que acaba se acumulando […] então chega um ponto que o seu limite no cartão de crédito acaba ficando estourado, não consegue pagar nem o mínimo”, detalha Ataliba.
Renegociação e seguros: ferramentas com alcance limitado?
Quando o ciclo de endividamento se intensifica, especialmente na ausência de uma reserva de emergência, qualquer imprevisto — como perda de renda, doença ou gasto inesperado — pode empurrar a pessoa para o rotativo do cartão de crédito. Nessa modalidade, os juros podem ultrapassar 400% ao ano, multiplicando rapidamente o valor devido e tornando a saída da inadimplência cada vez mais difícil.
Programas de renegociação em larga escala, como o Desenrola, embora tenham sido um alívio temporário para a primeira faixa de renda, não são suficientes para quebrar esse ciclo estrutural. Ataliba ressalta que, ao terminar, esses programas apenas minimizam o problema, e a tendência de endividamento persiste. Ele sugere a necessidade de um “Desenrola permanente” para recompor a capacidade de gastos das famílias.
Fábio Bentes, economista-chefe da CNC, concorda que iniciativas de renegociação são importantes, mas possuem um alcance limitado. Ele afirma que programas como o Desenrola e mutirões de negociação “fazem parte de uma microagenda que provoca efeitos positivos sobre o orçamento das famílias, diminui o grau de endividamento e de inadimplência, mas não solucionam o problema”.
Para Bentes, a quebra desse ciclo exige crédito mais barato e previsibilidade de longo prazo. “Para retomar o crédito ao consumo de forma vigorosa, é preciso um período relativamente longo de redução dos juros. A inadimplência menor ajuda no longo prazo, mas o processo é gradual”, aponta o economista.
Nesse cenário de aperto financeiro, um instrumento pouco difundido surge como potencial rede de proteção: os seguros ligados ao crédito, como o seguro prestamista e o seguro de pessoas. Ana Flávia Ribeiro, presidente da Comissão de Risco da Fenaprevi, destaca que o seguro ainda é subutilizado no Brasil, representando cerca de 6% do PIB, enquanto em outros países esse índice chega a 10% ou 12%.
O seguro prestamista, em particular, acompanha operações de crédito e financiamento e pode garantir a quitação integral ou parcial da dívida em caso de desemprego, perda de renda, incapacidade de trabalhar, acidente, doença ou morte. Essa modalidade funciona como um “airbag” para o orçamento, reduzindo a chance de uma crise pontual se transformar em inadimplência definitiva.
Embora o setor de seguros de pessoas tenha movimentado bilhões em prêmios e sinistros em 2025, e o seguro prestamista represente uma parcela significativa desses valores, ele ainda não é a solução definitiva para o endividamento generalizado. O avanço do setor convive com um quadro geral de endividamento elevado, indicando que o seguro atua como um amortecedor, mas não resolve as causas estruturais do problema, como o crédito caro e a desigualdade de renda.
A persistência da inadimplência, mesmo com indicadores macroeconômicos positivos, ressalta o abismo entre a estatística e a vida real. Para quem se encontra com o orçamento estrangulado, especialistas em finanças pessoais recomendam um diagnóstico rápido da situação e a troca de dívidas caras por modalidades mais baratas. A planejadora financeira do C6 Bank, Larissa Frias, sugere passos básicos para retomar o controle financeiro, enfatizando a importância de um planejamento financeiro consistente e da busca por crédito com juros mais acessíveis.











