Salão do Automóvel: VW volta se evento for mais forte
A possibilidade de a Volkswagen retornar ao Salão do Automóvel em 2027 está diretamente ligada a uma reformulação significativa do evento, de acordo com o presidente da Volkswagen do Brasil, Ciro Possobom. Em entrevista exclusiva ao g1, Possobom ressaltou que a participação de todas as montadoras é crucial para o sucesso e impacto da feira, e que as ausências de grandes marcas prejudicaram a edição mais recente.
O executivo afirmou que não se arrepende da decisão de não participar do evento anterior, mas ponderou que o formato atual, com estandes menores e pouca inovação, pode não agradar ao público. A Volkswagen, assim como outras gigantes do setor automotivo como Audi, BMW, Chevrolet, Ford, Jaguar, Land Rover, Mercedes, Nissan, Porsche e Volvo, optou por não expor seus veículos na última edição.
Possobom destacou que um salão mais “forte”, com a presença de todas as marcas e um formato mais dinâmico e aberto, seria o ideal para a montadora considerar um retorno. Ele mencionou como exemplo eventos na Europa que exploram diferentes formatos, como exposições em praças públicas, contrastando com o modelo tradicional de “salão de galpão fechado”.
O sucesso do Tarok e a preferência nacional por SUVs
Durante a entrevista, Ciro Possobom também abordou o sucesso do novo SUV da Volkswagen, o Tarok, que demonstrou um grande potencial de mercado. Ele explicou que a percepção do sucesso de um novo modelo geralmente surge entre três e seis meses antes do lançamento, quando o projeto já está consolidado em termos de design e especificações técnicas.
No caso do Tarok, o interesse do público foi evidente desde o teaser no Rock in Rio, em setembro de 2024, e se confirmou com a apresentação completa em março de 2025. A abertura de encomendas resultou na venda de 12.200 unidades em menos de uma hora, superando a capacidade de produção inicial da fábrica de Taubaté (SP).
O presidente da Volkswagen também comentou sobre a preferência do consumidor brasileiro por SUVs, que já representam 54% dos veículos emplacados desde 2020, em comparação com os hatches, que somam 24,6%. Apesar da forte demanda por SUVs, que levam a Volkswagen a oferecer seis modelos desse tipo no mercado, Possobom reitera que os hatches continuam sendo importantes, embora o ritmo de vendas do Polo, por exemplo, tenha sido superado pelo Tarok.
Eletrificação da frota: desafios e estratégias da Volkswagen
Um dos pontos centrais da entrevista foi a estratégia da Volkswagen em relação aos veículos eletrificados no Brasil. Atualmente, a montadora oferece apenas modelos 100% elétricos, como o ID.4 e o ID.Buzz, disponíveis exclusivamente por assinatura, diferentemente de concorrentes que já possuem diversas opções de carros elétricos e híbridos para venda direta.
Possobom explicou que a eletrificação da linha de produção atual encareceria significativamente os veículos, tornando-os inacessíveis para uma parcela importante do público. Ele exemplificou que um híbrido leve poderia custar R$ 10 mil a mais, e um híbrido completo, entre R$ 30 mil e R$ 40 mil a mais, deslocando o modelo para uma faixa de preço incompatível com o cliente alvo.
Apesar desses desafios, a Volkswagen se comprometeu a ter pelo menos uma versão eletrificada em todos os lançamentos a partir de 2026, com foco especial nos híbridos flex. A empresa acredita que essa tecnologia, aliada a carros elétricos importados ou produzidos localmente com tecnologias voltadas ao mercado nacional, é a solução mais adequada para o consumidor brasileiro, considerando o alto índice de quilometragem percorrida anualmente e a necessidade de valor residual confiável.
O que impulsionaria o mercado automotivo brasileiro
Ciro Possobom também analisou os fatores que poderiam impulsionar o mercado automotivo brasileiro, que a Fenabrave projeta encerrar 2025 com 2,55 milhões de veículos zero quilômetro emplacados. Ele apontou três elementos cruciais para um crescimento mais expressivo do que a modesta alta de 3% esperada para o ano.
O primeiro ponto destacado é a **redução dos juros**. Com a taxa Selic ainda em 15% ao ano, a diminuição dos juros é vista como um fator essencial para tornar o crédito mais acessível e estimular a compra de veículos. A previsão é que a taxa se aproxime de 12% ao final de 2026.
Em segundo lugar, Possobom enfatizou a importância de **ampliar a produção nacional**. Um aumento no volume de fabricação de carros no Brasil poderia reduzir os custos de produção e tornar os veículos mais competitivos no mercado. A indústria automotiva precisa se fortalecer com maior volume de produção para oferecer preços mais atrativos.
Por fim, o presidente da Volkswagen mencionou a necessidade de uma **regulamentação mais flexível**, especialmente em relação às normas de emissão de poluentes. Ele argumentou que a legislação brasileira, como o PL 8, pode ser mais rigorosa que em outros mercados, como Europa e Estados Unidos, adicionando custos significativos aos veículos e demandando investimentos substanciais em novas tecnologias, o que impacta o preço final para o consumidor.
A Volkswagen, portanto, aguarda um cenário mais favorável e um evento que apresente um formato mais alinhado às expectativas do mercado e do público para considerar seu retorno ao Salão do Automóvel, enquanto foca em estratégias de eletrificação e desenvolvimento de produtos que atendam às demandas do consumidor brasileiro.











