TikTok reage a #casadaaos14: remoção parcial e debate sobre segurança infantil
A plataforma de vídeos curtos TikTok tomou medidas para remover conteúdos relacionados ao **casamento infantil** após uma reportagem expor a circulação de vídeos onde meninas se apresentavam como casadas ainda na adolescência. As hashtags #casadaaos13, #casadaaos14 e #casadaaos15 foram bloqueadas, e uma parte dos perfis e vídeos associados a elas foram derrubados.
A ação, conforme divulgado pelo g1, visa coibir a promoção de situações consideradas abusivas e que colocam jovens em risco, violando as diretrizes da comunidade da plataforma. No entanto, especialistas ouvidos pela reportagem consideram a medida ainda insuficiente, pois diversas variações das hashtags e parte do conteúdo original continuam acessíveis, levantando preocupações sobre a efetividade das políticas de moderação.
A legislação brasileira proíbe o casamento antes dos 16 anos, mesmo com consentimento parental, o que torna a exibição desses conteúdos uma violação legal e ética. A iniciativa do TikTok, embora um passo na direção certa, reabre o debate sobre a responsabilidade das redes sociais na proteção de menores e na contenção de narrativas que normalizam práticas prejudiciais.
O impacto da reportagem e as primeiras ações do TikTok
Antes da intervenção, buscas pelas hashtags #casadaaos13, #casadaaos14 e #casadaaos15 apresentavam milhares de vídeos, indicando uma expressiva visibilidade para o tema. Com o bloqueio, essas pesquisas agora retornam uma mensagem de inexistência.
Apesar do bloqueio das hashtags principais, a reportagem identificou que alguns vídeos com a marcação original ainda permaneciam no ar, porém, com legendas alteradas ou sem os termos específicos. Um exemplo citado foi um vídeo de outubro de 2025, originalmente publicado com a legenda “#casadaaos14😍💍”, que continuou disponível, mas sem a hashtag e os emojis.
Outro conteúdo que chamou atenção foi um vídeo publicado em 2023, onde uma jovem relatava estar casada aos 14 anos e descrevia sua rotina, como “05:00 montando a marmita do marido”. Este vídeo acumulava mais de 183 mil curtidas e 2,6 mil compartilhamentos, utilizando a hashtag #casadaaos14.
A conta responsável por esse conteúdo, que contava com mais de 190 mil seguidores e era dedicada à rotina doméstica de uma adolescente supostamente casada, permaneceu ativa, mas o vídeo em questão foi removido. Similarmente, outros perfis que promoviam narratives sobre casamento infantil também foram desativados, com a plataforma confirmando a remoção de uma série de vídeos e contas por violação das Diretrizes da Comunidade.
Variações e brechas nas hashtags persistem
Apesar do bloqueio das hashtags diretamente ligadas ao tema, a análise revelou que variações e termos correlatos continuam acessíveis na plataforma. Hashtags como #casadaaos14anos, com 41 publicações, e até mesmo termos para idades mais jovens, como #casadaaos11 e #casadaaos12, que não foram alvo da reportagem inicial, permanecem buscáveis.
Essa persistência de conteúdos sob novas denominações ou em formatos ligeiramente alterados demonstra a dificuldade em erradicar completamente o problema. Especialistas apontam que a moderação automatizada, embora útil para identificar padrões, muitas vezes falha em captar nuances culturais e a intenção por trás de certas postagens, especialmente quando há um esforço deliberado para burlar os sistemas de segurança.
A estratégia de utilizar números em vez de letras, ou a criação de novas combinações de palavras, são exemplos de táticas usadas para manter a circulação de conteúdos restritos. Essa dinâmica exige uma vigilância constante e a adaptação das políticas de moderação para acompanhar a evolução das estratégias de disseminação.
Especialistas criticam a limitação da ação do TikTok
Especialistas em direito digital e proteção de crianças e adolescentes avaliam que a ação do TikTok, embora positiva, é limitada. Raquel Saraiva, presidente do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), ressalta que faltou proatividade em remover também as variações das hashtags, o que permitiria um bloqueio mais abrangente.
Manu Halfeld, analista de Relações Governamentais do Instituto Alana, descreve a medida como uma “desindexação da hashtag”, que apenas remove os resultados diretos da busca, mas não impede que os vídeos sejam encontrados por outros meios ou que o conteúdo continue a ser distribuído globalmente. Ela enfatiza a necessidade de estratégias de moderação mais robustas, como a diminuição preventiva do alcance e a remoção proativa de conteúdos que violem as diretrizes.
A moderação de conteúdo em plataformas digitais enfrenta desafios significativos. Enquanto conteúdos explícitos, como nudez, são frequentemente identificados por filtros automatizados, nuances culturais e contextos complexos, como o do casamento infantil, exigem uma análise mais profunda e, possivelmente, a intervenção de profissionais com conhecimento específico. A combinação de análises automatizadas com a expertise humana é vista como crucial para uma moderação eficaz.
Em resposta às críticas, o TikTok afirmou que, além da remoção de perfis e vídeos, medidas de segurança incluem o bloqueio de hashtags e termos de busca. A plataforma declarou que avaliará internamente a questão das outras hashtags. No entanto, a dificuldade em monitorar ativamente o uso de palavras-chave e a constante invenção de novas formas de burlar os sistemas de segurança continuam sendo um obstáculo para a completa erradicação de conteúdos prejudiciais.
A romantização do casamento infantil e seus riscos
Mariana Zan, do Instituto Alana e membro da Coalizão de Direitos nas Redes, aponta que esse tipo de conteúdo contribui para a **romantização do casamento infantil**, tornando-o aceitável, bonito ou romântico. Essa narrativa, segundo ela, reforça a ideia de que o casamento infantil não é apenas comum, mas pode ser positivo, mascarando a violência e a violação de direitos inerentes a essa prática.
A exposição de meninas em situações de casamento precoce, mesmo que apresentada como rotina doméstica, pode normalizar e até incentivar essa prática, especialmente entre o público jovem que consome esses vídeos. A falta de compreensão das complexidades e dos riscos associados ao casamento infantil por parte dos algoritmos de moderação agrava o problema, permitindo que tais conteúdos alcancem um público amplo.
A plataforma tem o desafio contínuo de equilibrar a liberdade de expressão com a necessidade de proteger usuários vulneráveis. A remoção de hashtags é um passo inicial, mas a criação de mecanismos mais eficazes de identificação, prevenção e remoção de conteúdos que promovem ou romantizam o casamento infantil é fundamental para garantir a segurança e os direitos das crianças e adolescentes.
A colaboração entre plataformas, especialistas, órgãos reguladores e a sociedade civil é essencial para desenvolver e implementar estratégias que combatam efetivamente a disseminação de conteúdo prejudicial e protejam os menores de idade em ambientes online. A discussão sobre a responsabilidade das redes sociais nesse contexto segue em pauta, com a expectativa de ações mais contundentes e abrangentes no futuro.











