IA que ‘revive’ mortos: aplicativo cria avatares polêmicos de falecidos

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IA 'ressuscita' entes queridos e divide opiniões na internet

Um novo aplicativo chamado 2Wai tem causado alvoroço nas redes sociais e acendido um intenso debate sobre os limites da tecnologia e o processo de luto. A ferramenta, desenvolvida por uma startup americana, utiliza inteligência artificial para criar "HoloAvatars", representações digitais de pessoas que já faleceram, permitindo que usuários "conversem" com elas.

A tecnologia promete recriar a personalidade, a voz e até mesmo reconhecer informações passadas, gerando uma experiência que, para alguns, pode trazer conforto, mas que para outros levanta sérias preocupações éticas e psicológicas. A viralização de um vídeo mostrando uma mulher grávida interagindo com um avatar de sua mãe falecida amplificou a discussão.

O vídeo, que já ultrapassou 40 milhões de visualizações, foi compartilhado pelo cofundador da startup, Calum Worthy, conhecido também por seu trabalho como ator. No entanto, a recepção foi majoritariamente crítica, com muitos usuários expressando desaprovação e alertando sobre os perigos da ferramenta. Conforme divulgado pelo G1, a discussão sobre a IA que revive mortos ganha contornos cada vez mais complexos.

Como funciona o aplicativo 2Wai para 'reviver' pessoas

O 2Wai funciona a partir da criação de "HoloAvatars", que podem ser de pessoas falecidas ou até mesmo de personagens fictícios ou profissionais, como um personal trainer ou um agente de viagens. No caso de recriar alguém que já morreu, é **essencial ter um vídeo gravado da pessoa em vida**, onde ela esteja falando e se movimentando.

A inteligência artificial, a partir dessas imagens, constrói um "gêmeo digital" que, segundo a empresa, é capaz de replicar a forma de falar do indivíduo, reconhecer o usuário e reter informações previamente compartilhadas. O aplicativo, que já demonstra a capacidade de suportar mais de 40 idiomas, está disponível inicialmente para iPhones nos Estados Unidos, com planos de expansão para Android em breve.

Atualmente, o serviço é oferecido de forma gratuita, mas a startup sinaliza que **assinaturas e compras dentro do aplicativo podem ser introduzidas futuramente**, o que levanta questões sobre a monetização do luto e da memória.

Riscos e debates éticos da tecnologia do luto (grief tech)

Especialistas em psicologia alertam para os perigos inerentes ao uso de tecnologias como o 2Wai, especialmente para pessoas em processo de luto. Mariana Malvezzi, psicóloga e psicanalista, aponta que a mesma tecnologia que pode oferecer uma forma de companhia também pode **gerar confusão entre o real e o simulado**.

Ela ressalta o risco de **dependência afetiva**, onde o indivíduo pode se apegar excessivamente à versão digital do falecido, dificultando a aceitação da perda. "Essa ilusão da IA pode minar a autonomia emocional, afastar o enlutado de rituais do luto e dificultar o movimento de simbolização, que é reconhecer a morte e, aos poucos, ressignificá-la", explicou Malvezzi.

A prática de replicar pessoas falecidas digitalmente com IA é conhecida como grief tech, ou tecnologia do luto. Plataformas desse tipo criam "clones digitais" ou "gêmeos digitais" que possibilitam interações virtuais com entes queridos que já partiram.

Uma pesquisa realizada pela ESPM para o Dia de Finados revelou que um em cada quatro brasileiros se imagina utilizando inteligência artificial para conversar com familiares já falecidos. O levantamento ouviu 267 participantes que haviam perdido entes queridos nos últimos dois anos, indicando um interesse significativo nessa tecnologia.

Casos polêmicos de 'avatares' em situações reais

O uso de inteligência artificial para "reviver" pessoas falecidas não é um fenômeno isolado e tem aparecido em situações cada vez mais impactantes. Em maio, o G1 noticiou o caso de uma versão de IA de uma vítima de homicídio que "marcou presença" em um julgamento nos Estados Unidos.

A representação digital da vítima expressou sentimentos sobre o crime e lamentou as circunstâncias do encontro com o agressor, sugerindo que em outra vida poderiam ter sido amigos. Essa utilização da IA em um contexto judicial gerou forte repercussão e debate.

Em outro caso notório, o jornalista Jim Acosta "entrevistou" um avatar criado por IA do jovem Joaquin Oliver, vítima do massacre em uma escola na Flórida em 2018. O vídeo, divulgado no YouTube, mostrava Acosta ao lado da versão digital de Joaquin, recriada pelos pais a partir de fotos e com voz e movimentos gerados por IA.

Esses exemplos demonstram a crescente aplicação da IA que revive mortos em diferentes esferas da vida, desde o conforto pessoal até a participação em eventos de grande repercussão, levantando questões sobre a autenticidade, a ética e o impacto psicológico dessas tecnologias emergentes.

O futuro da interação com 'gêmeos digitais' e o processo de luto

A capacidade da inteligência artificial de simular interações com pessoas falecidas abre um leque de possibilidades, mas também exige cautela. A linha entre o apoio e a perpetuação de um sofrimento pode ser tênue.

A tecnologia do luto, ou grief tech, busca oferecer ferramentas para auxiliar na superação da perda, mas o uso de avatares que replicam falecidos levanta preocupações sobre a naturalidade do processo de luto. A aceitação da morte e a ressignificação da memória são aspectos cruciais que podem ser afetados.

A disseminação de aplicativos como o 2Wai pode levar a um cenário onde as pessoas evitem o confronto com a realidade da perda, preferindo a companhia simulada de entes queridos em versões digitais. Isso pode resultar em uma **dificuldade em seguir adiante e em construir novas conexões emocionais**.

A discussão sobre a IA que revive mortos é um reflexo dos rápidos avanços tecnológicos e da forma como eles se integram às nossas vidas, especialmente em momentos de vulnerabilidade. É fundamental que haja um debate aberto e informado sobre os benefícios, os riscos e as implicações éticas dessas inovações, garantindo que a tecnologia sirva como um auxílio, e não como um obstáculo ao bem-estar emocional.

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